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sábado, 22 de novembro de 2008

por inteiro

Se na vida a gente pode adiar decisões e deixar que os fatos escolham por nós, no palco não temos esta opção.
Ali toda atenção é pouca. A presença integral dos sentidos é condição obrigatória, temos que estar preparados para qualquer resposta imediata a tudo que acontece. Estar a frente de uma platéia, ao vivo, é um convite para o inesperado.
E nosso compromisso com o 'ensemble', o grupo - como os americanos chamam - é ajudar uns aos outros a nos sairmos todos bem. We help each other look good.
Tem um lance de confiança que rola. Confiança que se alguém esquece ou troca alguma coisa, todo mundo ajuda a retomar o curso do que precisa ser feito.
Também há a segurança de que, no final das contas, a história é nossa! Nós que estamos contando, portanto podemos fazer adaptações necessárias caso haja algum acidente de percurso.
Quinta-feira fiz duas apresentações seguidas de Quiltmaker's. Tivemos pequenos probleminhas nas duas, texto trocado, figurino esquecido... E nas duas tudo se resolveu e chegamos ao fim como se nada tivesse acontecido - ao menos para quem estava assistindo.
Para a platéia que não sabe o que esperar minuto a minuto, tudo é parte do espetáculo, e se não deixarmos transparecer nenhum desespero e, graciosamente, procedermos nas correções e soluções, tudo fica bem.
A maior prova disso eu tive anos atrás numa peça chamada Blade. A luz apagou durante um monólogo da minha personagem. Eu vi a luz indo... e, mesmo em pânico, segui falando. Quando fiquei na absoluta escuridão, não tive como não ficar reticente, dei uma pausa, que deve ter sido de dois segundos, quando a luz voltou e pude retomar e concluir.
Pós show, conversando com uma espectatora e um colega, eu comentei do blecaute acidental, e ela disse ter achado que era parte do espetáculo. Ela entendeu que aquilo significava que a minha história continuava além do que eu estava falando e, como se fosse um corte de cinema, indicava uma passagem de tempo, retomando quando eu concluía meu argumento.
Mesmo quando estamos calados em cena, temos de estar presentes, e ativos! Não dá pra ficar fazendo a lista de supermercado, recapitulando o problema com a companhia elétrica, ou além de correr o risco de perder uma deixa, perdemos o pique da nossa energia. Ao removermos nossa atenção dos acontecimentos, abrimos uma brecha para a platéia remover a deles.
O prazer e comprometimento do ator são as atitudes que mais auxiliam a transportar quem nos vê para dentro da peça, e atingir a tão fantástica suspension of disbelief, quando a descrença dá lugar a fantasia e o público embarca por inteiro no nosso universo.

domingo, 9 de novembro de 2008

a platéia e o amor


Desde pequena eu tenho verdadeira adoração pelo teatro. Assistir peças infantis eram ocasiões especiais.
Como morava no interior do Rio Grande do Sul durante boa parte da minha infância, eu assistia espetáculos principalmente quando ia visitar meus avós em Porto Alegre. Quando maiorzinha, eu mesma lia no jornal as sinopses e escolhia qual eu queria ver. Eu me arrumava, botava vestido, meia-calça, tiara no cabelo e lá íamos nós, eu e minha mãe - ás vezes com meu irmão menor - ver as tradicionais sessões das quatro da tarde em fim de semana.
Além da peça em si, eu também amava quando os atores iam para o lobby para conversar e dar tchau pras crianças. Eu colecionava cartazes das peças e pegava autógrafos na saída. Eu sabia os nomes dos atores que eu gostava e os reconhecia na listagem da agenda cultural do jornal.
Dado meu histórico, talvez eu não devesse ter ficado tão surpresa com o tamanho da minha felicidade ao estrear "The Quiltmaker's Gift" esta semana para um público de 115 crianças de jardim de infância.
Confesso que eu estava super nervosa. Toda minha experiência era com teatro adulto, e eu não tinha idéia de como ia ser.
Do camarim, ouvimos a chegada da molecada como uma avalanche que ruidosamente tomou conta das cadeiras. No prólogo, quando duas atrizes interagiam com eles fazendo brincadeiras e explicando o que iria acontecer ali, meu coração comecou a derreter ouvindo as vozinhas que respondiam "Hi Jill" em unísssono, ou gargalhavam daquela forma gostosa que só criança sabe fazer.
Eles são um público muito direto. Você sente de imediato quando começa a perder a atenção da sua platéia, o que requer medidas imediatas de variação de tom e ritmo.
As palmas no final, com todos os pares de olhinhos e sorrisos voltados pra nós, me trouxeram uma satisfação que eu ainda não tinha sentido nesta minha experiência como artista.
Depois dos aplausos, nós atores corremos para o lobby para a despedida. Me vi então do outro lado da experiência que eu tanto apreciava quando pequena.
As turmas da escola iam se organizando em filas, e passavam por nós abanando, dizendo thank you , fazendo high five ou, melhor de tudo, abraçando a gente.
Fiquei super emocionada, e ainda estou agora, revivendo a memória daquele momento.
O carinho deste público não se disfarça, não é distorcido por ego ou por críticas, é um puro e simples gostei ou não gostei. E quando eles expressaram este carinho, este amor me tomou de assalto. Eu geralmente termino um espetáculo super ligada, energizada, plena, mas nunca tinha me sentido tão amada ao final da minha missão cumprida.
Eu nunca tinha pensado em fazer teatro infantil, mas neste momento, posso dizer que talvez esta tenha sido a mais completa de todas as minhas experiências num palco até hoje. Estou descobrindo que gente pequena pode ser a platéia mais generosa que existe.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

um par de sapatilhas

Hoje comprei um par de sapatilhas de ballet. Eu não botava uma sapatilha no pé desde os meus seis anos de idade, quando eu e todas as minhas amigas ficávamos alinhadas, mão na barra da escola de dança, saia de tule cor-de-rosa e cabelo puxado para trás, aprendendo a fazer pliê.
Ontem à noite foi o último ensaio no estúdio da Moving Dock para o Quiltmaker's Gift. Semana que vem começam os ensaios técnicos no teatro e a gente estréia na quinta dia 6..
No espetáculo, os atores são contadores de histórias que vão se transformando nos diferentes personagens. E estas transformações ocorrem na frente da platéia. Além da narrativa é tudo movimento; meio dança, meio teatro. Por causa disso, e como a roupa básica do show é toda preta (sobre a qual colocamos variados adereços), precisei comprar as tais sapatilhas. Pé no chão não tava dando e sapato normal não contribui pra fluidez que queremos passar.
Ontem mesmo um colega estava comentando que quando alguém perguntou pra ele se ele era um dancer (bailarino), ele respondeu que não, mas que era um mover (movimentador).
Por mais que eu não tenha treinamento em dança e sempre tenha detestado educação física, acabei me achando justamente no teatro físico, que usa o corpo e o movimento como parte integral - ou até principal - do processo de contar uma história.
Já fiz várias aulas que preparam para este tipo de teatro, como artes circenses, máscara neutra e dança moderna. Hoje sinto que posso dizer também que não sou bailarina, mas sou sim uma mover. E agora, com passinhos ainda mais leves e suaves, nas minhas novas sapatilhas pretas.

domingo, 12 de outubro de 2008

Retalhos de um ensaio


Ontem foi um dia intenso de ensaio para o Quiltmaker's Gift, a peça infantil baseada no livro de mesmo nome que estou ensaiando com a companhia The Moving Dock.
Quilt é a colcha de retalhos tradicional americana. Aliás, poucas coisas são tão representativas da expressão folk americana do que um quilt. Eles são muitas vezes temáticos e vários passam de geração em geração em uma família.
A Moving Dock trabalha muito com movimento, e as histórias e cenas surgem dos exercícios exploratórios que os atores fazem, através do corpo e do gesto. Sempre tem muito pouco texto, e muito, mas muito movimento nos espetáculos dela.

Esta é a terceira vez que trabalho com esta companhia, mas minha primeira fazendo um espetáculo para o público infantil.

Nesta cena que estamos trabalhando, a Quiltmaker (fazedora de quilts) tem um flashback, mostrando como ela aprendeu a costurar quando jovem, rica e infeliz (eu).

Quando ela aprende a costurar, descobre sua missão, deixa tudo para trás e vai viver numa casinha na montanha costurando colchas lindas que ela jamais vende, apenas dá de presente para quem é muito necessitado.


Na cena estamos eu (jovem Quiltmaker), a Quiltmaker e a minha professora de costura.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Inteligência Outonal

O outono chegou. Tanto lá fora, pelos dez graus que estão fazendo, quanto na minha alma que só quer saber de chás deliciosos e de ouvir Madeleine Peyroux.
Ontem à noite teve ensaio do "Quiltmaker's Gift" a peça que estou preparando com o pessoal da Moving Dock, uma companhia com quem já trabalhei outras duas vezes.
A Moving Dock explora as técnicas do Michael Chekhov (sobrinho do Anton, escritor). Ele desenvolveu um método muito próprio de trabalho do ator, e criou o termo 'gesto psicológico', que eu adoro.
Sempre tive dificuldade de usar o "the method", que foi o que me ensinaram no Chicago Actors Studio, trabalhando muito com memória emocional e afetiva.
Já descobri que não dou muito certo quando tenho uma atitude mental frente a um papel ou um texto, ou se tenho que buscar alguma coisa semelhante que aconteceu comigo, para ali encontrar a emoção que eu quero. No entanto, sempre que o trabalho parte do corpo, a coisa flui.
Ou seja, meu antigo eu, de jornalista super racional, aparentemente segue "emburrecendo", enquando abro outras extensões de outras versões de mim que eu sequer sabia estarem lá.
Sempre me considerei uma pessoa com ótimo vocabulário, mas hoje em dia, pra falar de muitas coisas, simplesmente não encontro as palavras. O gesto, o olhar e o movimento dizem muito mais.
Portanto, estes trabalhos com a Moving Dock, são uma delícia pra mim, com ensaios que viram território de exploração de situações e personagens, usando imagens e metáforas pra chegar onde se quer.
Um tempo atrás, teve uma personagem que tinha como gesto psicológico ficar o tempo todo segurando penas de pássaros que flutuavam à frente dela. Quando ela ficava arrasada, é como se todas aquelas peninhas tivessem caído no chão e fossem ser pisoteadas na lama. Parece papo de maluco... mas artisticamente faz todo o sentido do mundo. E, é claro, esta imagem, só serve pra mim, pra mais ninguém. São achados extremamente particulares.
Nesta peça, estou tendo uma experiência ainda mais brincada, pois é para o público infantil. Os ensaios estão muito engraçados, super intensos, bem físicos, mas parecem jogos e brincadeiras. Vai ter um ensaio aberto dia 11 e quero tirar umas fotos pra botar aqui.
Ontem também encontrei no MSN a Maria Allencar, que foi minha colega na CAL, no Rio. Maria tava fuçando no meu currículo de teatro e ficou curiosérrima sobre a leitura dos contos eróticos 'Sex Scenes', da escritora Polly Frost que eu fiz no ano passado.
Resultado, estou eu agora com idéias de criar algo similar, escrever contos em formato pronto para leitura dramática, cheios de comédia e putaria, pra apresentar em uma turnê por cafés descolados de algumas capitais brasileiras.
A idéia é super boa. Quero ver é se eu tenho coragem de escrever sacanagem. Hmmm.... Chego a ficar vermelha, antes mesmo de começar. Aliás, eu tinha um professor de literatura no colégio Rosário, o Walmor, que chamava as bochechas de "tronos do pudor". Certíssimo ele.
Hoje à noite estou de folga e já comprei vinho (Red Truck, 2007 pinot noir da California), mais um Brie francês, queijo de cabra da Holanda, pão italiano, pêssegos, e vou me divertir com meu marido olhando episódios antigos de L Word. Ah... os prazeres do frio e da boa companhia...