eu não sou de São Paulo, mas escolhi São Paulo pra viver. Cheguei faz exatamente uma semana com marido e nossas três gatas. Elas já falam português, mas descobrimos que a mais velha é uma grande aventureira. Escapou por uma brechinha na janela e foi dar uma volta no parapeito do décimo terceiro andar na nossa primeira madrugada aqui.
Tá tudo meio confuso ainda. Precisamos achar nossa casa para começarmos a contruir nosso lugar. A cabeça está a mil e os sentidos estão na velocidade da luz.
Talvez eu volte a fazer alguma coisa ligada ao jornalismo, mas não quero, não posso e não devo deixar o teatro pra trás.
Evoé!
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
quinta-feira, 30 de julho de 2009
mais fotos de Toymaker's War
Sylvie (Andrea Morales), sente a culpa pela morte e estupro da pequena Lejla numa vila só com crianças perto de Sarajevo. Eu, a velha, deusa da morte, carrego a pequena embora.
O jovem jornalista Peter (Greg Poljacik) confronta Sylvie por ter contado apenas parte da história.
Milan (Jesse Menendez) ensina Sylvie a brincar com Lejla sua irmã para distraí-la dos horrores da guerra.
A velha bruxa (moi!) leva Sylvie a reviver e redimir seu passado.Detalhe, não saíram críticas desse espetáculo porque ele foi apresentado como "ainda em desenvolvimento". Foi a primeira vez que foi montado, mas a autora está ainda mexendo no texto. Ela espera que um teatro maior compre os direitos e o privilégio de anunciar Toymaker's como "estréia mundial", ou world premiere.
sábado, 18 de julho de 2009
A guerra do fazedor de brinquedos
Essa semana encerrou a temporada de "Toymaker's War" dentro do Alcyone Festival. Foi bem bacana a experiência de fazer um espetáculo com texto mais pesado, tocante, e meu trabalho foi muito elogiado.
Em segundos, eu saía do meu jeito bubbly de ser, com a vitalidade dos meus trinta e poucos, e me transformava em um ser mitológico, de idade avançada, lembrando em muito o arquétipo da feiticeira que mora nas profundezas da floresta. Por meu papel ser apenas físico, eu estava sempre tranquila antes das apresentações. Um contraste agradável para o meu tradicional alterado estado de nervos antes de qualquer performance.
A história se passa entre Bósnia em 1995 e Canadá nos dias atuais, quando uma jornalista tem que revisitar seu passado cobrindo a guerra da Bósnia, quatorze anos atrás, e redimir suas escolhas, feitas quando era apenas uma repórter iniciante. E, não, eu não era a jornalista. Sequer fiz teste para o espetáculo. Fui chamada pelo diretor pra fazer o papel de Stara Zena - uma espécie de anjo da morte, deusa do além que aparece para as pessoas que estão prestes a morrer ou que precisam transformar profundamente partes de si mesmas.
Para o movimento dela, eu treinei com uma coreógrafa, e como parte do figurino, usava uma máscara, bastante horripilante.

Eu basicamente contracenava com a jornalista (como na foto aí ao lado), mas no cast tinha uma menina muito fofa de dez anos, Julia, que era a nossa mascote. Julia fazia Lejla, que me via como Stara Zena.
Quando eu punha a máscara, eu e Julia brincávamos de filme de terror no backstage. Em cena, eu a levava morta, como uma avó que guia sua neta mais querida.
Todos os atores estavam cientes de que precisavam desviar de mim nas entradas e saídas de palco em lugares estreitos, pois eu via muito mal com a máscara e morria de medo de tropeçar e causar algum desastre cênico. Na nossa última apresentação, após eu desejar break a leg pra Julinha, ela virou-se, pegou minha mão e disse: "Pra você também. E muito cuidado andando por aí com a máscara, não quero que você se machuque". !!!!
Foi a coisa mais adorável que eu poderia ter ouvido naquele momento. Me senti totalmente Stara Zena: poderosa, porém fisicamente frágil; uma vovó, recebendo cuidados e atenção da sua netinha.
Perfeito!
sábado, 18 de abril de 2009
nenhum vintém
Assisti na quinta-feira uma peça incrível escrita pelo romeno Matei Visniec e encenada pelo TrapDoor Theatre. O trabalho recebeu críticas ótimas e de fato merece cada uma delas. "Horses at the Window" é composta por três vinhetas nas quais sempre o homem vai para a guerra. Na primeira é a história de uma mãe e filho, depois filha e pai e por último, um casal. Depois de cada partida, chega de um homem de branco informando que a pessoa morreu.
O texto e a interpretação são carregados de absurdos, como deve ser para quem vive um tempo de guerra mesmo. Fica evidente o desencontro das necessidades e medos de cada dupla de personagens. As interpretações são fenomenais e extremamente físicas. O TrapDoor é conhecido por seu trabalho de fisicalidade extenuante. São pra mim um sopro de vitalidade na cena teatral realista da cidade.
Em suma, fiquei babando.
Porém, quando terminou a performance, a diretora da companhia - e também atriz - Beata Pilch comenta que o TrapDoor não tem condições de pagar seus atores, e estavam aceitando doações.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Em suma, fiquei chocada.
Tá certo que o teatro deles é pequeno (acho que 50 lugares, o que é comum pra Chicago) e com a bilheteria eles devem apenas conseguir cobrir os custos de funcionamento. Aqui também é normal não se ter muito patrocínio cultural... Mas porra! Uma companhia com esse talento, 15 anos de palco, vários prêmios... e os atores ali, sensacionais, dando absolutamente tudo de si e trabalhando absolutamente de graça.
Essa é a minha realidade aqui.
O teatro profissional nos Estados Unidos se divide em duas instâncias: sindicalizada (Equity), não sindicalizada. Apenas os teatros grandes, que são Equity garantem algum cachê ao ator. E eu, não sendo sindicalizada, mas já tendo feito mais de dez peças em teatro profissional, estou acostumada a geralmente não receber para trabalhar, sempre esperando que ali, na próxima oportunidade, vou ter meu big break, trabalhar para algum teatro mais bambambam e receber alguma compensação financeira.
Só que, o TrapDoor, apesar de não ser Equity, estava na minha lista de teatros bala. E caí na real de ver que, pelo visto, compensação financeira era pura fantasia da minha cabeça.
Ano passado eu já tinha tido uma reality call do gênero quando vi uma montagem muito inovadora e visceral da "Ópera dos Três Vinténs" feita pelo The Hypocrites, dentro do Steppenwolf (que é um teatro Equity, grande - mas eles estavam só usando o espaço pelo visto). Eram umas 30 pessoas e eu soube que ninguém estava recebendo cachê.
Eu não faço a menor idéia de como funciona cachê de teatro para ator no Brasil, mas sinceramente estou curiosa para saber como é.
O que mais me enlouquece é pensar que moro numa metrópole no país mais rico do mundo, dedicada ao teatro e as artes. E aqui nesta metrópole, mesmo sendo um ator sensacional, com anos de carreira, você trabalha apenas no amor.
Ou seja, tenho que repensar muita, mas muita coisa.
O texto e a interpretação são carregados de absurdos, como deve ser para quem vive um tempo de guerra mesmo. Fica evidente o desencontro das necessidades e medos de cada dupla de personagens. As interpretações são fenomenais e extremamente físicas. O TrapDoor é conhecido por seu trabalho de fisicalidade extenuante. São pra mim um sopro de vitalidade na cena teatral realista da cidade.
Em suma, fiquei babando.
Porém, quando terminou a performance, a diretora da companhia - e também atriz - Beata Pilch comenta que o TrapDoor não tem condições de pagar seus atores, e estavam aceitando doações.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Em suma, fiquei chocada.
Tá certo que o teatro deles é pequeno (acho que 50 lugares, o que é comum pra Chicago) e com a bilheteria eles devem apenas conseguir cobrir os custos de funcionamento. Aqui também é normal não se ter muito patrocínio cultural... Mas porra! Uma companhia com esse talento, 15 anos de palco, vários prêmios... e os atores ali, sensacionais, dando absolutamente tudo de si e trabalhando absolutamente de graça.
Essa é a minha realidade aqui.
O teatro profissional nos Estados Unidos se divide em duas instâncias: sindicalizada (Equity), não sindicalizada. Apenas os teatros grandes, que são Equity garantem algum cachê ao ator. E eu, não sendo sindicalizada, mas já tendo feito mais de dez peças em teatro profissional, estou acostumada a geralmente não receber para trabalhar, sempre esperando que ali, na próxima oportunidade, vou ter meu big break, trabalhar para algum teatro mais bambambam e receber alguma compensação financeira.
Só que, o TrapDoor, apesar de não ser Equity, estava na minha lista de teatros bala. E caí na real de ver que, pelo visto, compensação financeira era pura fantasia da minha cabeça.
Ano passado eu já tinha tido uma reality call do gênero quando vi uma montagem muito inovadora e visceral da "Ópera dos Três Vinténs" feita pelo The Hypocrites, dentro do Steppenwolf (que é um teatro Equity, grande - mas eles estavam só usando o espaço pelo visto). Eram umas 30 pessoas e eu soube que ninguém estava recebendo cachê.
Eu não faço a menor idéia de como funciona cachê de teatro para ator no Brasil, mas sinceramente estou curiosa para saber como é.
O que mais me enlouquece é pensar que moro numa metrópole no país mais rico do mundo, dedicada ao teatro e as artes. E aqui nesta metrópole, mesmo sendo um ator sensacional, com anos de carreira, você trabalha apenas no amor.
Ou seja, tenho que repensar muita, mas muita coisa.
domingo, 9 de novembro de 2008
a platéia e o amor

Desde pequena eu tenho verdadeira adoração pelo teatro. Assistir peças infantis eram ocasiões especiais.
Como morava no interior do Rio Grande do Sul durante boa parte da minha infância, eu assistia espetáculos principalmente quando ia visitar meus avós em Porto Alegre. Quando maiorzinha, eu mesma lia no jornal as sinopses e escolhia qual eu queria ver. Eu me arrumava, botava vestido, meia-calça, tiara no cabelo e lá íamos nós, eu e minha mãe - ás vezes com meu irmão menor - ver as tradicionais sessões das quatro da tarde em fim de semana.
Além da peça em si, eu também amava quando os atores iam para o lobby para conversar e dar tchau pras crianças. Eu colecionava cartazes das peças e pegava autógrafos na saída. Eu sabia os nomes dos atores que eu gostava e os reconhecia na listagem da agenda cultural do jornal.
Dado meu histórico, talvez eu não devesse ter ficado tão surpresa com o tamanho da minha felicidade ao estrear "The Quiltmaker's Gift" esta semana para um público de 115 crianças de jardim de infância.
Confesso que eu estava super nervosa. Toda minha experiência era com teatro adulto, e eu não tinha idéia de como ia ser.
Do camarim, ouvimos a chegada da molecada como uma avalanche que ruidosamente tomou conta das cadeiras. No prólogo, quando duas atrizes interagiam com eles fazendo brincadeiras e explicando o que iria acontecer ali, meu coração comecou a derreter ouvindo as vozinhas que respondiam "Hi Jill" em unísssono, ou gargalhavam daquela forma gostosa que só criança sabe fazer.
Eles são um público muito direto. Você sente de imediato quando começa a perder a atenção da sua platéia, o que requer medidas imediatas de variação de tom e ritmo.
As palmas no final, com todos os pares de olhinhos e sorrisos voltados pra nós, me trouxeram uma satisfação que eu ainda não tinha sentido nesta minha experiência como artista.
Depois dos aplausos, nós atores corremos para o lobby para a despedida. Me vi então do outro lado da experiência que eu tanto apreciava quando pequena.
As turmas da escola iam se organizando em filas, e passavam por nós abanando, dizendo thank you , fazendo high five ou, melhor de tudo, abraçando a gente.
Fiquei super emocionada, e ainda estou agora, revivendo a memória daquele momento.
O carinho deste público não se disfarça, não é distorcido por ego ou por críticas, é um puro e simples gostei ou não gostei. E quando eles expressaram este carinho, este amor me tomou de assalto. Eu geralmente termino um espetáculo super ligada, energizada, plena, mas nunca tinha me sentido tão amada ao final da minha missão cumprida.
Eu nunca tinha pensado em fazer teatro infantil, mas neste momento, posso dizer que talvez esta tenha sido a mais completa de todas as minhas experiências num palco até hoje. Estou descobrindo que gente pequena pode ser a platéia mais generosa que existe.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
meu grande encontro
Com mais de 150 teatros, 200 companhias, a maior escola de improv (teatro e comédia de improviso) dos Estados Unidos, grandes companhias de renome mundial e pelo menos três escolas de cinema, de fato, Chicago é um ótimo lugar pra ser ator.
É daqui a Second City, a escola de Improv de onde vieram Bill Murray e quase todos os atores do Saturday Night Live. É aqui a casa do Steppenwolf Theatre, companhia de teatro de ensemble fundada por John Malkovich entre outros, do Chicago Shakespeare Theatre - que é premiado até por ingleses, do Goodman e do Lookinglass.
Em termos de treinamento, há várias escolas independentes e pelo menos cinco grandes universidades com departamento de teatro. Três faculdades de cinema (Columbia, Art Institute e Northwestern) têm produções constantes de filmes dos estudantes, proporcionando assim um rico espaço para aprendizado de todos os envolvidos, atores, diretores e equipe.
No centro, há quatro teatros que oferecem o que eles chamam de "Broadway in Chicago". Muitos musicais ficam mesmo residentes na cidade por meses a fio, como é o caso de Wicked, que tem desde 2005 um elenco local e o mesmo sucesso de Nova York. Outros fazem sua estréia aqui, como mercado teste antes de levarem o show para a Big Apple.
Mas a cidade é feita mesmo de seus teatros pequenos. Qualquer sala escura onde caiba um palco e pelo menos 40 lugares, vira espaço de performance. Com tantas companhias independentes, é fácil conseguir trabalho e adquirir experiência.
Além dos profisisonais e companhias ligados ao sindicato, aqui também se faz muito teatro profissional não sindicalizado. É por isso que tantos atores vêm primeiro pra cá, antes de se decidirem por batalhar um lugar ao sol na costa leste ou oeste - Nova York ou Los Angeles.
Eu não sabia de nada disso quando decidi estudar teatro aqui.
Desde menina eu sempre quis ser atriz, e artes cênicas foi o resultado de um teste vocacional que eu fiz antes da faculdade. Mas, pelo visto, naquele momento eu não estava pronta pra encarar o desafio de ser artista num país em desenvolvimento. Optei por jornalismo e, dentro dele, televisão.
Tive a benção de trabalhar sempre com cultura, cobrindo música, dança, fotografia, artes plásticas, cinema e, é claro, teatro. Por mais que eu sempre tivesse profunda admiração por todos os artistas que tive o prazer de entrevistar, eu sempre tinha uma pontada no estômago quando entrevistava atores e atrizes. Uma pontada de inveja. Da grossa. Eu queria mesmo era estar do outro lado da entrevista.
Cada matéria que eu fazia com profissionais anunciando seus workshops e cursos, eu prometia pra mim mesma que iria me inscrever e participar. Mas, óbvio, nunca dava. Jornalismo é uma profissão de dedicação integral.
No entanto, eu não conseguia ficar longe das artes dramáticas, que insistiam em aparecer misteriosamente no meu destino. Por exemplo, quando eu ia começar a apresentar o programa Palco na TVCOM, ganhei de presente da emissora um curso de interpretação.
Foi idéia da Alice Urbim, diretora de especiais da RBS - talvez inconscientemente iluminada por uma visão profética. A TV tinha ganho uma vaga num curso de interpretação para TV (por Thais de Campos e André Cerqueira, da Rede Globo) e Alice achou que seria ótimo pra mim.
Completamente surpresa pela oferta, lá fui eu, direto pra aula que começava em poucas horas. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Aquele fim de semana foi fundamental para minha desenvoltura frente às câmeras, mas principalmente, porque ali foi plantada mais uma sementinha, que só mais tarde eu viria a entender.
Logo que mudei pra Chicago, meu visto não me permitia trabalhar. Passei vários meses depressiva sem saber o que fazer da vida, e ao mesmo tempo com um mundo de possibilidades à minha frente. Eu tinha ali a chance de começar tudo de novo, tinha um livro em branco pra poder escrever um novo caminho, um novo destino.
Criei coragem e procurei o Chicago Actors Studio. E foi ali que tudo começou. Depois fiz Act One e outros cursos independentes.
Atuar é um ofício que eu tive que aprender do zero. E como eu não gosto de fazer nada mal feito - por um medo danado de queimar meu filme - levei quase três anos pra me sentir apta a participar de testes.
Todos os anos, quando não estou em cartaz ou filmando, faço novas oficinas e cursos, sempre crescendo, sempre acrescentando novas ferramentas. Sinto falta às vezes de não ter tido uma formação acadêmica, mas na prática, isso não me impede de ter as mesmas oportunidades que meus colegas com diploma.
Todos os dias me dou conta da tremenda sorte que eu dei em vir parar aqui. Como se fosse golpe do destino mesmo. A palavra vocação, os americanos traduzem também como "calling", um chamado. Por mais que eu tenha tentado escapar desse chamado, no final, o teatro me achou, me seduziu, me envolveu e, agora, completamente entregue, não tenho mais planos de me esquivar deste grande caso de amor.
É daqui a Second City, a escola de Improv de onde vieram Bill Murray e quase todos os atores do Saturday Night Live. É aqui a casa do Steppenwolf Theatre, companhia de teatro de ensemble fundada por John Malkovich entre outros, do Chicago Shakespeare Theatre - que é premiado até por ingleses, do Goodman e do Lookinglass.
Em termos de treinamento, há várias escolas independentes e pelo menos cinco grandes universidades com departamento de teatro. Três faculdades de cinema (Columbia, Art Institute e Northwestern) têm produções constantes de filmes dos estudantes, proporcionando assim um rico espaço para aprendizado de todos os envolvidos, atores, diretores e equipe.
No centro, há quatro teatros que oferecem o que eles chamam de "Broadway in Chicago". Muitos musicais ficam mesmo residentes na cidade por meses a fio, como é o caso de Wicked, que tem desde 2005 um elenco local e o mesmo sucesso de Nova York. Outros fazem sua estréia aqui, como mercado teste antes de levarem o show para a Big Apple.
Mas a cidade é feita mesmo de seus teatros pequenos. Qualquer sala escura onde caiba um palco e pelo menos 40 lugares, vira espaço de performance. Com tantas companhias independentes, é fácil conseguir trabalho e adquirir experiência.
Além dos profisisonais e companhias ligados ao sindicato, aqui também se faz muito teatro profissional não sindicalizado. É por isso que tantos atores vêm primeiro pra cá, antes de se decidirem por batalhar um lugar ao sol na costa leste ou oeste - Nova York ou Los Angeles.
Eu não sabia de nada disso quando decidi estudar teatro aqui.
Desde menina eu sempre quis ser atriz, e artes cênicas foi o resultado de um teste vocacional que eu fiz antes da faculdade. Mas, pelo visto, naquele momento eu não estava pronta pra encarar o desafio de ser artista num país em desenvolvimento. Optei por jornalismo e, dentro dele, televisão.
Tive a benção de trabalhar sempre com cultura, cobrindo música, dança, fotografia, artes plásticas, cinema e, é claro, teatro. Por mais que eu sempre tivesse profunda admiração por todos os artistas que tive o prazer de entrevistar, eu sempre tinha uma pontada no estômago quando entrevistava atores e atrizes. Uma pontada de inveja. Da grossa. Eu queria mesmo era estar do outro lado da entrevista.
Cada matéria que eu fazia com profissionais anunciando seus workshops e cursos, eu prometia pra mim mesma que iria me inscrever e participar. Mas, óbvio, nunca dava. Jornalismo é uma profissão de dedicação integral.
No entanto, eu não conseguia ficar longe das artes dramáticas, que insistiam em aparecer misteriosamente no meu destino. Por exemplo, quando eu ia começar a apresentar o programa Palco na TVCOM, ganhei de presente da emissora um curso de interpretação.
Foi idéia da Alice Urbim, diretora de especiais da RBS - talvez inconscientemente iluminada por uma visão profética. A TV tinha ganho uma vaga num curso de interpretação para TV (por Thais de Campos e André Cerqueira, da Rede Globo) e Alice achou que seria ótimo pra mim.
Completamente surpresa pela oferta, lá fui eu, direto pra aula que começava em poucas horas. Foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Aquele fim de semana foi fundamental para minha desenvoltura frente às câmeras, mas principalmente, porque ali foi plantada mais uma sementinha, que só mais tarde eu viria a entender.
Logo que mudei pra Chicago, meu visto não me permitia trabalhar. Passei vários meses depressiva sem saber o que fazer da vida, e ao mesmo tempo com um mundo de possibilidades à minha frente. Eu tinha ali a chance de começar tudo de novo, tinha um livro em branco pra poder escrever um novo caminho, um novo destino.
Criei coragem e procurei o Chicago Actors Studio. E foi ali que tudo começou. Depois fiz Act One e outros cursos independentes.
Atuar é um ofício que eu tive que aprender do zero. E como eu não gosto de fazer nada mal feito - por um medo danado de queimar meu filme - levei quase três anos pra me sentir apta a participar de testes.
Todos os anos, quando não estou em cartaz ou filmando, faço novas oficinas e cursos, sempre crescendo, sempre acrescentando novas ferramentas. Sinto falta às vezes de não ter tido uma formação acadêmica, mas na prática, isso não me impede de ter as mesmas oportunidades que meus colegas com diploma.
Todos os dias me dou conta da tremenda sorte que eu dei em vir parar aqui. Como se fosse golpe do destino mesmo. A palavra vocação, os americanos traduzem também como "calling", um chamado. Por mais que eu tenha tentado escapar desse chamado, no final, o teatro me achou, me seduziu, me envolveu e, agora, completamente entregue, não tenho mais planos de me esquivar deste grande caso de amor.
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