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quarta-feira, 3 de junho de 2009

irritação

O que fazer quando se está num projeto por amor, mas esse amor some?
Quando o trabalho com o qual nos comprometemos
tomou rumos com o qual não concordamos?
Quando até decorar falas se torna uma tarefa irritante,
porque tudo parece ruim demais,
chato demais,
longo demais,
idiota demais?

Detesto me sentir assim.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

enquanto isso, no século passado

Este fim de semana que passou tivemos um 'chá' com as senhoras do Harvard Observatory. As senhoras éramos nós, as atrizes do Unsung Stars, improvisando e recebendo pessoas como as astrônomas do século passado para tomar um chá conosco.
Eu achei no começo que isso não ia dar certo, que ninguém ia se interessar, que era uma bobagem sem tamanho.
Errei feio.
Não só gostei desse faz de conta, mas também o público adorou brincar conosco. Nossos 'visitantes' todos se empenharam em falar e se portar como em 1910, perguntando sobre nosso trabalho no 'Observatório' e também sobre curiosidades de nossa vida pessoal e nossos desafios como primeiras mulheres na ciência.
Teve um jornalista do Chicago Reader que pintou lá e amou. Não conseguia ir embora.
Foi divertido.
Essa iniciativa era parte de um fundraising da companhia. Ainda estamos precisando levantar muito mais dinheiro pra poder montar o espetáculo com todos os figurinos e objetos de época. O chá foi um sucesso tamanho que vamos incorporar algo do gênero às performances em si, quando enfim estas começarem.
Sei que sempre reclamo que em Chicago os processos de montagem de um espetáculo são curtos demais, mas este aqui está se demasiado longo e perdendo momentum.
Em junho temos dois fins de semana para testar o script, debatendo com o público no final. E lá vou eu decorar a montanha científica para mais uma apresentação que ainda não é the real thing.
Eu deveria estar mais empolgada depois do sucesso do chá, mas não estou.
Weird.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

quem desdenha quer comprar

Continuo nos ensaios de Unsung Stars. É meio estranho pra mim fazer todo esse processo sem ter uma data definida de estréia.
A diretora está em negociação com o planetário, para fazermos a temporada lá. Seria perfeito pelo trabalho ser todo a respeito de astronomia, e também porque atingiríamos um público muito maior, não necessariamente público de teatro.
Como já participei do processo criativo desse espetáculo em 2007, quando ajudei a escrever, vários dos pontos que estamos explorando agora são total dejá-vu pra mim.
Embora eu tenha ganho desta vez uma nova personagem, o que dá um colorido todo novo e me abre a possibilidade de milhares de novas descobertas e explorações a respeito dela, eu me encontro meio enjoada no momento.
Não sei o porquê disso.
Todo processo de ensaio, eu fico super empolgada no começo e quando estamos perto da estréia. Mas durante... tem sempre uma baixada de onda, de energia. Fico me enrolando pra ir aos ensaios, me faço de aborrecida pra sair de casa.
Não que eu chegue atrasada. E não que meu aborrecimento dure além do marco da porta do estúdio da Moving Dock.
Assim que entro lá, sempre acabo me divertindo. Adoro encontrar as pessoas e sem dúvida me dedico ao trabalho que estamos fazendo.
Na verdade, tem muito a ser feito ainda. Os textos estão mudando, as cenas estão mudando - são as vantagens de um trabalho que parte do ator.
Isso me lembra um pouco 'tomar banho' quando eu era pequena. A mãe gritando no pátio, chamando, e eu me escondendo, enfiada no miolo de um limoeiro, me enrolando e fazendo de tudo pra não ir. Mas depois que entrava embaixo do chuveiro, como toda criança, brincando com sabão e xampu, esquecia que tinha hora pra sair.

sexta-feira, 20 de março de 2009

transitando entre os séculos

Vi ontem no Jornal Nacional (via Globo int.) que foi lançado no Brasil o novo vocabulário ortográfico da língua portuguesa. Com certeza preciso ter acesso a esse livro. Morando longe, estou bastante por fora das modificações e sigo escrevendo à moda antiga.
Quando criança, lembro-me bem de ficar surpresa ao encontrar a palavra "assúcar" nos cadernos de receita da minha avó materna. E mais velha um pouco, achar esquisito minha outra avó escrevendo "húmido", assim, com "H".
Hoje percebo que vou ter de fazer um esforço razoável para me atualizar, evitando que eu me sinta uma senhora do século anterior me fazendo passar por uma mulher moderna com blog no século XXI.
Ensaiando para "Unsung Stars" tenho pensado muito nos nossos hábitos humanos. Nossas modas, nossos costumes e posturas que se alteram de uma época para a outra.
Essas mulheres astrônomas que estamos retratando no espetáculo são da virada do século XIX para o XX. Portanto, uma intensa pesquisa de época é absolutamente necessária para compor a personagem.
Imersas em fotografias do observatório de Harvard naquela época (as poucas fotos a que temos acesso), estudos de moda, costumes, biografias, filmes que retratam 1900 a 1920, vamos montando o quebra-cabeça do que teria sido a vida dessas mulheres dentro e fora do ambiente de trabalho.
Já elas estarem trabalhando com ciência era algo absolutamente inovador numa época em que mulheres podiam trabalhar apenas como enfermeiras, professoras primárias ou operárias de fábricas. Aí mora justamente a importâncias dessas nossas estrelas não cantadas, abrindo caminho para a população feminina participar do pensamento e do fazer científicos.
O processo da companhia The Moving Dock é todo baseado no método de Michael Checkhov, ou seja, tudo parte do corpo do ator/ atriz.
É uma delícia compor personagens dessa forma, com tempo de explorar qual o centro dominante, seja o desejo/vontade (pelvis), sentimento (peito), ou a cabeça; encontrando também imagens que nos auxiliem a compreender e incorporar a forma como uma personagem específica expressa cada um desses centros.
No caso de Cecilia Payne-Gaposhkin, a astrônoma que eu estou fazendo, o centro mais importante dela é a mente -com a imagem de explosões estelares em constante expansão para auxiliar meu corpo a expressar minha certeza de sua compulsão visionária.
No centro do coração Cecília é toda praticidade, não se permitindo sentir. Essa é uma mulher que morreu de câncer no pulmão em 1979, sem um resmungo de dor sequer. Ela não sabia lidar bem com emocões intensas, muito menos expressá-las, mas era ao mesmo tempo amável com as pessoas.
Para esse centro, escolhi a imagem de uma balança, dessas antigas com pesinhos sendo acrescentados de um lado e outro, sempre em busca de um contido equilíbrio.
Para o centro da vontade, minha imagem para Cecília é um touro puxando o arado - de energia inesgotável, devagar e certo uma vez que posto em movimento. Ela era de uma determinação notável sendo a primeira mulher a receber um PhD em Radcliffe ousando afirmar de que são feitas as estrelas.
Ela veio da Inglaterra para os Estados Unidos porque descobriu que jamais conseguiria trabalhar com astronomia no seu país de origem. Cruzou um oceano atrás de uma oportunidade porque se recusava a ser professora infantil depois de ter terminado uma faculdade em física e astronomia.
Ela ajudou outros, um Russo, Sergei Gaposhkin a vir para os EUA também para poder trabalhar. Depois casou com ele, bem tarde (para os padrões do período), já aos 34 anos, e teve três filhos, dos quais cuidou enquanto escrevia papers, ensinava em Harvard e viajava o mundo apresentando suas pesquisas.
Ela tinha medo de altura, se achava feia e tinha um ouvido musical perfeito. O primeiro livro que ela lembra de sua infância era a Odisséia de Homero, cujas palavras ela ouviu repetidas vezes enquanto ouvia atenta, acomodada nos joelhos de sua mãe.
Cecília é um prato cheio. Quanto mais mergulho na sua autobiografia, mais me encanto com ela.
Ainda estou em plena fase exploratória, buscando imagens, movimentos, sensações do que seria ser Cecília chegando na América em 1923 para uma fellowship que mudaria sua vida.
Tanta ebulição numa sociedade onde muito pouco podia ser demonstrado.
Aqui um dos grandes desafios é encontrar a vida interna da personagem e expressá-la através da silhueta vertical, os gestos pequenos sempre junto ao corpo, a delicadeza da linguagem da época Eduardiana, de uma sociedade polida e que se sentia confortável sendo assim.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Estrelas Esquecidas

Em 2007 participei de uma criação coletiva com o Studio da Moving Dock de um espetáculo contando a história das primeiras mulheres astrônomas do Harvard Observatory, que começaram a trabalhar lá como 'computadoras' , calculadoras de estrelas, no final do século XIX.
Este é um trabalho muito querido pra mim porque ajudei a escrever e a contar a história dessas mulheres que tomaram uma pequena brecha e abriram portas para todas as mulheres cientistas.
A Moving Dock acaba de ganhar um prêmio de ciências, uma verba para montar o espetáculo completo e eu estou felicíssima com isso.
Como apenas eu e mais uma colega do cast original estamos disponíveis para essa próxima fase, a companhia está fazendo auditions para o elenco, totalmente feminino.
Domingo eu estava lá, ajudando, acompanhando e assistindo os grupos que vinham fazer o teste. Foi mega interessante. Cada grupo tinha uma dinâmica diferente.
Eu nunca tinha assistido auditions antes, e a experiência é inesquecível. De assistir minhas colegas dando tanto de si, com suas inseguranças e também sua arte. Bonito.
A notícia do prêmio que Unsung Stars (nome do projeto) recebeu saiu também na mídia.